Olá meu povo. Depois de tanto sumir tive hoje uma brecha e estou postando esse Allegro para Piano em fá maior que escrevi aqui em Sorocaba. Espero que gostem. Abraço a todos e saudades.
ALLEGRO PARA PIANO EM FÁ MAIOR (Musicas Minhas) escrito em domingo 24 maio 2009 16:07
A ALEGRIA DE VIVER É INDIFERENTE (Cárcere das Palavras) escrito em segunda 09 março 2009 12:50
A alegria de viver é indiferente
Quando o corpo sorrí e a alma sente.
Não há verdade que o mundo não padeça
Dentro ao jogo do universo, quando a peça
Fundamental de cada um se move.
Por fim, uma nova era se promove
E tudo mais se torna diferente
(E esta é uma verdade bem sombria!)...
É indiferente viver de alegria
Quando o corpo sorrí e a alma sente.
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Mogi Guaçu, 1997.
UMA HISTÓRIA SEM PARALELOS (Contos) escrito em terça 03 março 2009 19:31
Caía a noite no largo enluarado. Das casas na estrada uma tênue luz se via em cada uma das janelas e, na dimensão de cada porta, apenas uma minúscula faixa de luz era percebida na soleira. Tudo era silencio e nada mais.
Eu caminhava lentamente na direção de uma pequena habitação à esquerda do rio quando, repentinamente, surgiu-me por sobre a cabeça um vulto negro e estranho que se parecia com um imenso morcego, mas que, tão logo pude melhor examiná-lo, mostrou se tratar de um urubu. Estranhei deveras o aparecimento desta ave em horas tais porque, como bem se sabe, os urubus evitam o convívio humano – especialmente à noite – e, via de regra, sempre aparecem em lugares onde há almoço, ou seja, carniça!
O pássaro, grande e negro como breu sentou-se ao pé de um acrotério em meio ao largo e encarou-me com um olhar perscrutador, o que me causou medo e curiosidade. Um leve vento agitou toda a cena e foi se desdobrar em torvelinhos diante da ave. Após alguma espera logrei ouvir o que me parecia se tratar de uma voz humana.
- Aqui, seu idiota! Sou eu. O urubu!
Desacreditei por completo que pudesse estar ouvindo uma ave falar, especialmente um urubu, de modo que atribui minha alucinação à bebida da qual eu havia exagerado.
- É impossível! – murmurei – Um urubu não pode falar como um homem.
- E por acaso eu me pareço com um homem? Tenho cara de corvo ou de louro? – gritou a ave.
- Bem... não tem! E isso é o que mais me intriga. Como pode uma ave como você conversar feito homem se, em verdade, isso não passa de um grande disparate?
- O seu mundo é muito complicado! Vocês homens não são capazes de confiar em si próprios. Pra vocês, o que não é racional é impossível; descrêem de tudo e de todos, plantam o ceticismo em tudo. Vê: eu sou o que você está vendo, mas você não quer que eu seja o que eu sou porque, desta maneira, você se torna um louco. Você devia entender um pouco mais da vida. Lembra do boi que rumina no pasto? Você realmente crê que ele é apenas aquilo, um ser que come, bebe e dorme? Você pode imaginar um vazio completo, um ser/estar sem pensamento, sem sentido e sem amores? Há muita coisa que vocês homens não podem ver, o que não significa dizer que estas coisas não existam de fato. Olhe o exemplo do vento: ele arrasta multidões com sua fúria, varre lares e países inteiros; canta sua canção assombrosa ao pé dos nossos ouvidos e faz gelar nossas entranhas quando nos toca humildemente. E você por acaso o vê? Por acaso ele não existe? Existem segredos mais profundos que a própria morte e que vão além de toda crença ou descrença!
A ave então se alçou para longe de mim e um turbilhão arrebatou-me ao céu e plantou-me sentado no galho mais alto de uma enorme sequóia. Olhei para o chão totalmente confuso e grudei-me ao galho qual sanguessuga, tão enorme era a vertigem. Alguém vinha ao meu encontro, mas, da altura onde eu estava, não podia ver com precisão quem ou o que era. A ave empoleirou-se ao meu lado e, de um jeito bem estranho, esboçou um largo sorriso enquanto me olhava. Meu sangue gelou nas veias.
- Sabe, - continuou ela – vocês homens se preocupam demais com as suas filosofias. Vocês dissecam Platão, desvisceram Voltaire, canibalizam Kant, mas nunca procuram ser vocês mesmos. Vocês admiram Da Vinci e Raphael, mas nunca se admiram; vocês escutam Mozart ou Beethoven, mas nunca se escutam; vocês se acham superiores, mas superiores a que? Vocês são vaidosos como Narciso, mas nunca buscam a beleza; amam o brilho do diamante, mas se esquecem que têm pés de barro. A vossa civilização esta corrompida e ninguém ainda se deu conta dessa triste verdade...
E um grito terrível e lancinante ecoou por toda a imensidão.
Ao pé da árvore, no infinito do “abismo”, percebi com terror um vulto que tremia sob uma grande cruz. Era um vulto de mulher, de mãe, mas havia também um homem, um homem pregado na cruz, sorrindo e morrendo como um pássaro apanhado. Uma ânsia de vômito subiu até a minha boca e eu me senti tremer, rolar e brevemente, vertiginosamente, cair da imensidão me projetando no abismo.
Dessa vez Jesus não me salvou!
AMOR A DIA (FRAGMENTOS) (Contos) escrito em quinta 26 fevereiro 2009 18:56
I
Eu não era nada mais que um simples estudante. Três longos anos me separavam da vida comum já que o rigor científico me guiava as ações e toda a minha retórica brotava das longas e sonolentas discussões acadêmicas que não possuem valor real em si mesmas, mas apenas um brilho vaidoso e narcisista de merda nenhuma. Já me acostumara a desembuchar palavrórios bonitos, considerações a priori e a posteriori; sabia dissecar o cabedal de saberes filosóficos das ciências humanas e defendia a práxis e o movimento dialético da história como vertentes epistemológicas para explicações ontológicas de formas axiomáticas e tautológicas de resolução para um único problema: ser ou não ser?
Shakespeare era mesmo um gênio! Ser ou não ser? Eis aí a questão! Ser ou não pobre, ser ou não bonito, ser ou não o cara, ser ou não ser macho! Puta que pariu! Quanta coisa – ou tudo! – esbarra nesta pergunta tão simples: ser ou não ser?
Naquele tempo, - e isso foi antes de tudo o mais – havia um problema quanto a esta questão que era realmente nevrálgico.
Eu vivia naquele velho bloco – o último dos moicanos – naquele velho complexo de moradia, mas tinha quem vivesse um pouco acima, tinha quem se considerava acima de tudo, e este é um ponto que quero explicar melhor.
Imaginem vocês como é incomodo morar com uma multiplicidade de universos humanos e como é engrandecedor ao mesmo tempo. No começo, mil e quinhentas questões filosóficas e políticas eram gritadas veementemente entre o fazer do arroz e o comer da salsicha. Mil e quinhentos pensamentos e pensadores desfilavam nas mesas dos botecos entre um gole e outro de cerveja e uma bebericada de cachaça. Platão discutia seu ascetismo com Schopenhauer enquanto Kant mordia a canela da fenomenologia hegeliana. Marx (ah! Marx! O Ronaldinho dos pensadores!) embasbacava uma multidão de revolucionários babacas enquanto Adorno desfilava saltitante como uma bailarina desvairada. Todo mundo cagava cultura, todo mundo ia fazer a revolução e instituir uma nova ordem mundial comunista contra o neoliberalismo mortificante e, especialmente, contra o gosto macabro de se comer Big Mac, beber Coca-Cola ou usar um tênis da Nyke. As ações intelectuais se consolidavam pela cachaça e a academia parecia irradiar suas exortações em toda parte (embora ninguém realmente as levasse em consideração). Todo mundo ia ser a trombeta da Nova Era, o Papa da revolução... o bêbado abraçado com a garrafa na beira da guia com um cachorro lambendo sua boca suja.
II
Lembro-me muito bem de tudo isso. Ser ou não ser? E todo mundo dizia que era: “Eu sou COMUNISTA!”, “Eu sou ATEU!”, “Eu sou BI(CHA)SEXUAL!”, “Eu sou!”, “Eu sou!”. Nunca vi tantos istas reunidos num complexo tão pequeno.
A multiplicidade de universos humanos é algo estarrecedor. Certa vez, visitei um Centro de Ressocialização para ver um camarada meu que estava detido para se reeducar porque fumava maconha. Lá, encontrei uma multiplicidade de sujeitos: 155, 157, 12, homens de todos os artigos que mantinham, dentro da sua ignorância comum uma unidade capaz de desestruturar um Estado. No meio acadêmico, ao contrário, a multiplicidade era de egos, uma infinidade de seres compromissados com suas causas, defensores de bandeiras bem visíveis, precursores de velhas idéias, mártires pelados e bêbados de pinga! Eu via na multiplicidade a disposição da tolerância que, paradoxalmente, sobrevinha como ordem, obrigação ou imperativo ferrenho. Não seja homofóbico! Não seja sexista! Não seja racista! Não seja fascista! Dê a sua bunda! Encha a sua cara! Fume maconha e quebre os padrões mas... mantenha o respeito! A revolução se faz com cachaça e perder a bunda é só um detalhe. O mundo é gay! Seja gay! Seja sujo! Ande pelado pra todo mundo ver o seu pau ou a sua xoxota. La lucha sigue, sigue! Assim se faz a revolução, assim se quebram os preconceitos.
Preconceitos! Aqueles que mais gritavam contra eles eram os que mais os possuíam. Nobres acadêmicos encharcados nos botecos da vida, ateus, comunistas, gays, anarquistas, lésbicas e simpatizantes, todos cagando cultura nas rodinhas de alguma festa, até o álcool falar mais alto e começar o bafão de sempre!...
III
Não foi difícil perceber o espírito daquilo tudo. Rapidamente percebi de que era feito o mundo da academia, de que matéria eram feitos os seus defensores e como eu deveria agir para ter sucesso naquele mundo tão incrível.
O trabalho acadêmico, a pesquisa científica nada mais é que uma colcha de retalhos. NII NOVE SUB SOLO, já dizia o Eclesiastes e assim eu aprendi que produzir ciência na área das humanidades não é nada mais que gozar com o pau de alguém. Logo, segundo fulano ou, de acordo com cicrano e tal como defende beltrano vai-se construindo a pesquisa acadêmica, nunca se falando nada e sempre dizendo um pouco de tudo. Depois vem a análise especialista de algum especialista que é especializado no botão esquerdo da camisa do filósofo iminente. Esse especialista anota, rabisca os originais que a gente entrega pra ele – e que ele nem lê direito, quando não os perde – e ali faz os seus apontamentos instruindo com o pau de quem devemos gozar ou não. Surgem então aquelas discussões infinitas que não dizem porra nenhuma, depois vem a redação da bosta toda, sua consolidação e, finalmente, sua defesa indefesa diante de uma banca de sábios que estão cagando e andando pra tudo aquilo que foi dito ou escrito.
IV
Certa noite rolou uma festa interessante.
A casa estava suja como nunca estivera antes. Na sala, uma poça de água da chuva formava uma espécie de piscina de lodo e de sujeira, Na cozinha, uma multidão de copos e panelas sebentas jaziam empilhadas sobre o mármore da pia como uma estranha Torre de Pisa; os banheiros fediam mijo e bosta e suas pias encardidas ostentavam uma centena de catarros esverdeados e pelos de todas as partes do corpo...
Eu estava tentando dormir há horas. Meu companheiro de quarto falava sem parar e eu pensava na calmaria que se firmava naquela noite. De repente, um estardalhaço na sala e a voz de Matilda elevou-se sonora acima de todas as outras. Eu sabia que aquilo era sinal de baderna, sabia que algo de muito excitante estava para acontecer.
É engraçado como a velha premissa de que a calmaria anuncia a tempestade é verdadeira. Num momento, estamos constrangidos com nossos pensamentos inventando na cabeça uma porção de histórias e, no outro, estamos na balada, na verdadeira putaria notívaga enchendo o rabo de cachaça (no meu caso só de cachaça, mas algumas pessoas encheram de outra coisa!) e aprontando coisas que até o Satanás duvida.
Uma multidão de gente encheu a sala e um emérito professor doutor aboiolado apareceu pagando cervejas e desmunhecando como uma perua no cio. Vejam vocês como é estranha esta vida e como ela é imprevisível. Num instante temos um douto senhor graduado na Sorbonne cagando regras na frente da sua classe de paspalhos, noutro instante, este mesmo senhor está despirocando numa sala suja de moradia, beijando a boca de um gigante de dois metros de altura e querendo dar a bunda a todo custo para o primeiro que se habilitar a comê-lo.
A cervejada vinha de todos os lados e o doutor soltava as onças da carteira como se tirasse escorpiões do bolso. Baseados eram acendidos como velas numa procissão e a cocaína era consumida como se fosse algo banal. De repente, um grito:
- Matilda! Você já deu pra todo mundo, por que você não dá pra mim também?
E a jovem Matilda, cheia de desdém e repugnância por aquele velho maracujá de gaveta vociferou:
- Vai te foder seu velho filho da puta! Eu posso ter dado pra todo mundo, mas não dou pra você nem fodendo!
E o sábio senhor girou bêbado consigo mesmo e foi abraçar o grandalhão que o encoxava por trás, enquanto outro marmanjo beijava seu pescoço como se beijasse a xoxota da Gisele Bünchen.
Amanhecendo, todo mundo bêbado! A casa revirada por um furacão dos infernos enquanto, no banheiro, jazia sobre a tampa da privada um trocinho de bosta que o sábio doutor deixou cair do seu cu porque se esqueceu de erguer a tampa da privada na hora de cagar.
E no dia seguinte tudo igual. O doutor cagando cultura do alto do seu grau de PHD sem se lembrar da bosta que largou sobre a tampa da privada, mas com seu rabo ardendo um pouco de tanto acariciar o grandalhão.
V
Se Deus descesse na Terra e visse o resultado da sua criação, decerto perderia qualquer esperança de salvá-la pela eternidade. O mundo acadêmico é feito de muita, de muita bosta. Como bem disse Milan Kundera, “a merda é um problema teológico mais penoso do que o mal”. E convenhamos: é o cacete passar um ano se preparando para entrar no “templo do saber” (palavras do excelentíssimo Senhor Doutor Tullo Vigevani!) e, depois, descobrir que este templo é nada senão uma enorme vala cheia de merda cagada pelos cus mais eminentes da alta intelectualidade humana.
Confesso que dá vontade de vomitar quando a gente escuta o blá blá blá de algum figurão que jura conhecer todos os remédios para o mundo e que, no fundo, não passa de um caquético espantalho moldado na porcaria e que não consegue enxergar nem mesmo a sua própria mediocridade.
O KITSCH É POP - AFORISMO 96 DA QUARTA PARTE DO ABISMO DO MUNDO (Abismo do Mundo: o espetáculo da angústia) escrito em quinta 12 fevereiro 2009 18:06
O kitsch é pop. – Eu, como um bom produto da minha época sei muito bem enxergar com os meus olhos bem abertos os incessantes avanços e retrocessos das nossas ciências, das artes, da política, da sociedade em geral, do contrário, estaria fadado a perecer numa caverna totalmente avesso à luminosidade do mundo que tanto aclara como pode cegar as nossas vistas frente aos objetos sensíveis do conhecimento, seus fenômenos enfim. Mas o que dizer da insanidade das nossas músicas que, de um instante para outro, parecem ter retornado à pré-história do bom gosto e à irracionalidade dos sentidos? Como não me sentir profundamente pesaroso ao ver a Sonata em Dó maior de Mozart sendo taxada de démódé ao passo que a “bela” canção de amor do NX0 é exaltada como algo “de profundo talento e inspiração musical”? Nem mesmo Waldick Soriano poderia ser tão rasteiro nos seus pendores bregas de apologia da babel ruidosa de flatulências sonoras! E pensar que Adorno se revoltava tão furiosamente contra o jazz nos anos de 1930 e 40!... Eu simplesmente me recuso a partilhar dessa monstruosidade quasímoda que nos empurram pelas goelas abaixo – e pelos ouvidos! – muito embora não possa de fato fugir completamente aos rumores da abominação. Époquinha engraçada esta nossa época! Então fico por fim com as palavras de Nietzsche quando este se perguntava: “mas de que serve a música a estas alminhas de hoje, demasiado volúveis, não desenvolvidas, semipessoais, curiosas e ávidas de tudo, almas de uma época que termina?”1 Ele seria certamente um tanto mais duro nas suas críticas se vivesse nos dias de hoje, ou, quem sabe, anteciparia o seu colapso sifilítico para fazer ouvidos moucos a isto tudo, especialmente a entediante poluição auditiva e ao mal-gosto louvável de imbecis em peles de artistas como Vanessa Camargo ou Celci Meireles , definitivamente, coisas para inglês ver!
1 Aforismo 172 “Tragédia e música”. NIETZSCHE, Friedrich. Aurora: reflexões sobre os preconceitos morais. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 126.


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